Outrora

Domingo de sol no Mauerpark, um gramadão imenso ao redor de um trecho bem-preservado do Muro de Berlim. Quase metade do parque é ocupada por uma feirinha hippie, onde artistas locais vendem gravuras e cerâmicas, disputando espaço com cacarecos da China e acessórios falsificados. Na avenida vão passando bondes e descarregando grupos e mais grupos de jovens. Muitos deles vivem ali nos arredores, no bairro de Prenzlauer Berg — coração da contracultura na época da Alemanha Oriental. Rapazes de mullet, jaqueta bomber e óculos de aviador, enrolando cigarros e folheando LPs. Moças de blazer com ombreiras, mom jeans e óculos de sol neon, fazendo fila na porta de uma padaria orgânica. Não fossem os iPhones e os cartazes anunciando aplicativos de relacionamento, seria difícil situar essa cena em Março de 2025.

Ideias dos anos 70, sons dos 80, acessórios dos 90, personalidades dos 2000. Nossa cultura pop virou um grande brechó. De onde vem tamanha febre pelo passado?

Werner Herzog, um dos ícones do Novo Cinema Alemão, certa vez disse que a nossa civilização morria de fome pela falta de imagens atuais; que vivíamos cercados de referências já puídas pelo cinema e a televisão, e não tínhamos mais com o que alimentar nossa imaginação. Essa análise veio numa entrevista com o jornalista Roger Ebert, em 1982 — ano em que o mundo foi apresentado a Indiana Jones, em Os Caçadores da Arca Perdida; em que Michael Jackson lançou o álbum Thriller; em que faleceu Leonid Brezhnev; e em que uma padaria de Verona inventou o pão ciabatta.

Foi também em 1982 que Herzog, então com quarenta anos, lançou Fitzcarraldo, sua obra mais icônica. O filme retrata um irlandês radicado no Peru que sonha em construir uma ópera no remoto povoado de Iquitos. Para financiar esse sonho, ele embarca na missão alucinada de transportar um barco através da mata e das montanhas, tentando alcançar terras amazônicas ricas em borracha.

Muita coisa aconteceu desde aquele longínquo 1982: Indiana Jones ganhou mais quatro filmes; morreu Michael Jackson; caiu o Muro de Berlim; a internet tomou o mundo de assalto; um bar de Londres inventou o espresso martini. Teria Herzog incorrido numa falácia ao avaliar que a humanidade estava pobre em imagens e dependente de repetir o passado? Ou teria ele pressentido a nostalgia crônica que estava por vir?

A palavra alemã que mais se aproxima de saudade é Sehnsucht, composta por dois elementos: sehnen, que significa ansiar, e sucht, que significa compulsão — tanto no sentido de vício quanto no de busca desenfreada. O idioma alemão codifica a saudade como um estado psicótico, no qual a pessoa abandona o presente para caçar um passado inatingível; bem diferente da nossa acepção de saudade, que é o contraste entre o dulçor da lembrança e o amargor da ausência. A nossa saudade não é louca; ela é lúcida, consciente de seu aqui e agora.

Mas e a nostalgia?

Entendo que a nostalgia difere da saudade num aspecto crucial: enquanto a saudade tem um objeto concreto — um lugar, uma pessoa, um momento —, a nostalgia é difusa e ilusória. Ela é um anseio por um passado que não se presenciou, que só se conhece por meio de relatos, imagens, sons. Tenho saudades do meu avô, e de escutar o Bolero com meu avô, mas seria descabido dizer que tenho saudades de Maurice Ravel e dos anos 20 — por eles, tenho nostalgia.

Gosto de pensar na nostalgia como uma das muitas manifestações da ansiedade existencial: um sentimento universal e inevitável, que acomete jovens e idosos, pobres e ricos, os muito felizes e os profundamente miseráveis.

Os renascentistas tinham nostalgia pela Antiguidade, assim como os vitorianos a tinham pelos góticos. Tolkien criou todo um universo em cima de uma abstração nostálgica da Idade Média, habitada por criaturas — elfos, anões, feiticeiros — que hoje são inseparáveis do nosso imaginário medieval. Em todos esses casos, o passado serviu de referência para algo que havia-se perdido com o tempo — a filosofia, o mistério, a magia —, mas também como metáfora para transformações que aconteciam no presente. Os renascentistas não fizeram cosplay de Grécia Antiga; eles alavancaram o zeitgeist dos gregos como diretriz para sua própria realidade, almejando construir uma sociedade que pensa, questiona e explora, tal qual a Atenas de seu imaginário. E eles conseguiram ser autênticos em seu movimento porque usaram da nostalgia como inspiração, não como refúgio.

A autenticidade é a manifestação cultural do aqui e do agora. Autêntico é aquilo que não busca estar onde não está — algo cada vez mais difícil num mundo sufocado por um fluxo irrefreável de conteúdo e informação, onde a contemplação é açoitada pela defasagem. O que diferencia a nostalgia que vivemos hoje dos ciclos nostálgicos do passado é o papel da tecnologia, que rompe com o aqui e o agora em nome da conveniência do tudo, em todo lugar, a todo momento. O local dá lugar ao global; o subjetivo, ao universal. O resultado é um presente genérico e produtizado, onde se tem acesso a tudo e vínculo com nada. Um presente de fartura desalmada, que nos deixa ansiosos e entediados — e que nos leva a buscar abrigo no passado. A nostalgia vira nostalgismo.

Ansiamos por um tempo em que as distâncias eram reais e toda viagem era uma aventura. Um tempo em que a escassez era real e não um golpe para levantar preços e gerar furor. Um tempo em que Paris era mais Paris e o Rio era mais Rio; em que a autenticidade era inevitável e não uma mera ambição comercial, fingida e fraudada.

Engana-se quem diz que o passado era mais simples. De muitas formas, ele era bem mais complicado: havia menos liberdade e mais guerra, menos direitos e muito mais deveres. Mas o passado era mais concentrado, forte, sincero.

E o futuro com o qual costumava-se sonhar era, sim, cheio de tecnologia e conveniências — mas pouco se imaginava tudo o que seria sacrificado para chegar lá. Em 1982, era realista sonhar em ter uma casa; hoje, é realista conversar com robôs, mas a casa virou ficção.

Sonhávamos em ir ao espaço, mas a visão não incluía bilionários pedantes, que mandam todo mundo trabalhar do escritório enquanto passeiam pela órbita. Sonhávamos em falar com gente que mora do outro lado do globo, mas não em passar o dia de chamada em chamada no Teams. Sonhávamos com uma plataforma para espalhar nossas ideias pelo mundo, mas não com influenciadores crentes disseminando Café com Deus Pai.

E diante dessa realidade, nossa relação com o futuro não é mais de aspiração e sim de agouro. Daí a paixão pelo retrofuturismo: ele nos permite sonhar com um presente alternativo, que manteve a autenticidade e o vanguardismo do passado, acrescido das conveniências da tecnologia. Um sonho bonito, porém impossível.

Werner Herzog bem o sabia. Em Fitzcarraldo, ele fez questão de não usar efeitos especiais — à época a grande febre do cinema. Em vez disso, ele optou por submeter a produção a condições extremas de exaustão — longos dias de filmagem na mata, com trabalho braçal, calor, insetos, discórdia — que emulavam aquelas da própria história. Durante as gravações, Herzog envolveu-se em uma série de brigas com Klaus Kinski, ator que interpreta o protagonista. Mas, apesar de todas as provações, o filme saiu do papel e tornou-se um grande sucesso.

Herzog e Kinski acabaram construindo uma relação lendária de amor e ódio. Eles colaboraram em mais quatro filmes e tentaram assassinar um ao outro em múltiplas ocasiões, conforme documentado em Meu Melhor Inimigo, de 1999. Curiosamente, Steven Spielberg chegou a convidar Kinski para o papel do nazista-mór, Sturmbandführer Toht, em Caçadores da Arca Perdida. Kinski recusou, afirmando que o roteiro era uma pilha enfadonha de bosta.

Esse tipo de sinceridade anti-pragmática me enche de nostalgia. Ainda assim, considero que Kinski falhou em reconhecer a genialidade irônica de Indiana Jones: uma paródia do herói pastelão construída justamente em cima da nostalgia — pela Segunda Guerra Mundial, assim como pela Antiguidade —, criando uma atmosfera esdrúxula, mas completamente irresistível. O dieselpunk em sua melhor forma cinematográfica.

Que saudades desse filme.

Será que eu ficaria bem de chapéu Herbert Johnson?

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