Conivência e conveniência
O momento é de triunfo na carreira de Alice Weidel. Seu partido, a AfD, conquistou a segunda maior bancada do Congresso alemão, dobrando o número de assentos em relação ao pleito anterior. Nos últimos anos, Weidel vem se cristalizando como o rosto e a voz que guiam a extrema direita alemã, o que torna impossível ignorar aspectos bastante inusitados de sua vida pessoal.
Para começar, Weidel é lésbica, enquanto a AfD, como manda a cartilha, é firme na defesa dos papéis tradicionais de gênero. Weidel mantém uma união estável com Sarah Bossard, nascida no Sri Lanka e adotada ainda pequena por um casal europeu: um arranjo curioso para quem lidera um partido que se opõe ao casamento homoafetivo e é abertamente hostil a estrangeiros. Indo além, Weidel está criando duas crianças com Bossard, embora o discurso oficial da AfD condene famílias iniciadas por casais não tradicionais. E, por fim, talvez o mais emblemático dos pontos: Weidel e sua família residem na Suíça — onde os impostos são convenientemente baixos — enquanto ela lidera um partido de fibra ultranacionalista no país vizinho.
Ao personificar tantos elementos antagônicos à agenda de seu partido — começando pelo simples fato de ser mulher —, Weidel se mostra muito mais que uma ode à hipocrisia: ela é a prova viva de como os extremistas são, hoje, os verdadeiros pragmatas.
Nas forças democráticas, tamanha incoerência entre vida pública e privada dificilmente escaparia do cancelamento. Mas, perante os eleitores da AfD, os progressismos afetivos de Weidel não têm se mostrado um empecilho. Neonazistas, um importante núcleo eleitoral da AfD, não são lá muito chegados em pessoas LGBT — ainda menos as que formam família com não arianos — mas quem representaria seus interesses políticos em Berlim melhor que Weidel? Ela pode não corresponder ao arquétipo de líder com o qual eles sonham, mas pelo menos é loira e neta de um notório integrante da SS: um pouco de conivência para muita conveniência.
A AfD conquistou sua enorme bancada com o apoio de diversos grupos para os quais essa conta parece fechar: idosos que cresceram na Alemanha Oriental e sentem que foram atropelados pelo ocidentalismo pós-reunificação; homens jovens que atribuem seus fracassos pessoais e profissionais à agenda progressista dos governos anteriores; bilionários oportunistas, muitos dos quais sequer residentes ou eleitores na Alemanha, que enxergam na extrema direita um vetor para reformas hipercapitalistas. Se Weidel concorda e condiz pessoalmente com essas diferentes agendas, pouco importa aos eleitores, e pouco importa também a ela. A ordem do dia é resultado, não coerência.
Nos EUA, Trump tornou-se a voz dos evangélicos — os arautos do puritanismo —, apesar de sua ficha incluir fraudes, encontros com atrizes pornográficas e uma gravação em que afirma que mulheres devem ser agarradas pela genitália. Os pastores não cobram grandes demonstrações de fé: contanto que Trump leve a agenda adiante, o rebanho está à sua disposição.
Em sua primeira campanha presidencial, Bolsonaro também abraçou um papel que não condizia com sua biografia: o de voz do capital. Embora em três décadas de Congresso, jamais tenha atuado em nome do naco engravatado do eleitorado, Bolsonaro manobrou para convencer os endinheirados de que era apenas um neoliberal assintomático. Deu certo. Seu mandato começou honrando a promessa, com pressão forte por reformas pró-mercado e Paulo Guedes galopante em seu cargo de super-ministro. Mas, tão logo o vento mudou — soprado pelo caos da pandemia — Bolsonaro se livrou da fantasia de Capitão PIB, atirou Guedes de escanteio e abraçou programas sociais eleitoreiros. Na Faria Lima, o baque foi grande, mas o cálculo não mudou: Jair continuava sendo uma opção melhor que Lula; antes um aliado pragmático do que um inimigo ideológico.
Foi-se o tempo em que extremistas alçavam voo embalados por convicções sinceras e utópicas, como Lênin e Hitler; o tempo em que ditador tinha aura de estadista. Como dizia Marx, na história tudo acontece duas vezes: primeiro como tragédia, depois como farsa. Hoje vivemos a era dos extremistas farsantes, para os quais a ideologia é um vetor, não uma diretriz. Sua agenda se ajusta aos ventos da conveniência: tudo é utilitário, portanto descartável.
Mas, embora esse pragmatismo predatório seja efetivo na hora de unir mandachuvas em torno de uma campanha, ele cria um desafio para quando, enfim, se assume a caneta: numa sala onde todo mundo só busca levar vantagem, todo jogo é de soma zero. Ainda nem completou dois meses de gestão, e Trump já está sofrendo para entrosar os interesses nacionalistas do movimento MAGA com a pulsão anti-Estado do Vale do Silício. Escolher não escolher vai se tornando cada vez mais difícil. Não à toa, Trump tem tanta pressa: ele sabe que vai precisar de muito mais que bravatas e factoides para retornar o capital financeiro e eleitoral dos acionistas de sua campanha.
A derrocada de Bolsonaro certamente serve de alerta: ao tentar malabarizar lavajatistas, militaristas, terraplanistas, grileiros, crentes, milicianos e sócios da XP, ele acabou derrubando as bolas no chão da avenida e o semáforo abriu. O resultado foi a derrota, a inelegibilidade, a iminente prisão e a abertura da extrema direita para novas lideranças, como Pablo Marçal.
É, portanto, um engano assumir que a congruência de interesses entre os sustentáculos da extrema direita representa um alinhamento ideológico genuíno. Tal qual o toma-lá-dá-cá dos partidos tradicionais, o extremismo é, hoje, um mercado de conivências e conveniências entre diferentes grupos insatisfeitos com o status quo e cujas agendas anti-democráticas não são bem-vindas nos partidos tradicionais. O extremista farsante é apenas o coordenador desse mercado, fingindo-se inflamado com causas para as quais não dá a mínima, a fim de que possa levar adiante o único item fixo e inegociável em sua própria agenda: a busca por lucro pessoal.
Enquanto Trump corre contra o tempo e Bolsonaro corre da polícia, Weidel, por ora, vive o cenário dos sonhos: tem uma bancada forte, mas ainda habita o confortável posto de oposição. Apesar dos ganhos, o foco da AfD deve continuar sendo o bloqueio de pautas progressistas; para levar adiante sua própria agenda, eles teriam que romper o ainda bem vedado cordão sanitário que os outros partidos armaram à sua volta. Mas, com o sucesso recente, a ascensão de Weidel à chancelaria é para muitos apenas uma questão de tempo. Fica a dúvida se ela conseguirá malabarizar as bases bastante heterogêneas de seu partido — e como reagirá se sua vida pessoal for usada contra ela.