Autobahn
A vida é cheia dessas ironias que fazem a gente questionar a idoneidade do destino. Coincidências absurdas, ecos de um passado remoto, crônicas de mortes anunciadas.
Quinta passada, uma dessas ironias entrou voando pela janela da sala e pousou no meu ombro enquanto eu preparava um chá.
— Posso te contar uma historinha? — ela perguntou, toda colorida e agitada. — Prometo que você vai gostar.
Antes que eu pudesse responder, ela disparou:
O ano é 1974. O lugar, Düsseldorf, Alemanha Ocidental.
O grupo de música experimental Kraftwerk (alemão para “usina”) lança seu quarto disco. O lado A é ocupado por uma única faixa de vinte e dois minutos: Autobahn. É um som expansivo e hipnótico, que retrata o entusiasmo de um grupo de jovens dirigindo pela estrada. Apesar do enunciado simples, a canção é amplamente aclamada como a primeira obra-prima da música eletrônica. Sua catarse entre o brutalismo e o hedonismo é o puro suquinho do zeitgeist alemão dos anos 70 e serve de inspiração para muitos dos gêneros que vêm a dominar as paradas nas décadas seguintes: do techno ao house, do synth-pop ao hip-hop.
Na Alemanha, é em especial o techno que ganha tração. Com a queda do Muro, ele se torna o som idiossincrático de Berlim, cujas noites lendárias viram assunto no mundo todo. Montada dentro de uma antiga usina, a balada Berghain se alça ao posto de símbolo máximo dessa cena. A enorme dificuldade de ser admitido na porta, a proibição de tirar fotos, os relatos do que ocorria em seus corredores subterrâneos: tudo contribui para a aura brutalista-hedonista que se torna a bandeira não apenas da casa, mas de toda uma cidade.
Uma bandeira que ajuda a capital alemã a atrair hordas de jovens de todo o mundo — um fluxo mais que bem-vindo para uma cidade ainda repleta de feridas abertas de um passado sombrio. Com os jovens, vêm também ideias, energia, ambição. Outrora etiquetada de pobre, mas sexy, Berlim se consolida como um dos ecossistemas de tecnologia mais importantes da Europa; lar de milhares de startups e de uma comunidade techie cada vez mais volumosa.
E então vem a pandemia. As baladas são forçadas ao interlúdio; no lugar das festas, a Berghain abre como galeria de arte. Outras simplesmente ficam fechadas até segunda ordem. Enquanto isso, propulsionadas pela digitalização inevitável e a nova realidade de trabalho remoto, as startups atingem seu apogeu, com grandes manchetes e recorde de investimentos.
Quando as festas finalmente retornam de seu longo hiato, muitos acreditavam num frenesi tal qual os anos dourados de 1920. Mas acontece o inesperado: uma retomada morna e anticlimática. Logo começam a sair as notícias: a famosa noite de Berlim está à beira da falência. Cerca de metade das casas anunciam o fechamento iminente das portas. Seus operadores, assim como jornalistas que estudam o assunto, atribuem o clima de fim de festa a um colapso sistêmico, ocasionado por uma série de fatores econômicos e sociais.
Há quem afirme — apoiado em dados — que a nova geração não curte sair; culpa do TikTok e da adolescência pandêmica.
Há também quem atribua a crise ao aumento expressivo dos aluguéis, fruto da concentração imobiliária nas mãos de empresas que priorizam contratos de temporada e adotam práticas criminosas para ampliar seu mercado nos principais bairros.
Ainda outros apontam o dedo para as reclamações constantes de quem se mudou para os arredores das baladas e então percebeu que não gosta de barulho.
Mas, dentre os muitos fatores, a ameaça mais infame e imediata às baladas de Berlim é, ironicamente, uma Autobahn.
O trecho de número 17 da Autobahn A100, que conectará a periferia sudeste da cidade ao centro, está planejado para atravessar o Ostkreuz, coração da vida noturna. Casas de renome, como ://about blank, Renate e Club Ost, terão de fechar as portas em razão do projeto. Caminhando pelos arredores, é impossível não reparar nos adesivos de protesto grudados nos postes e nos cartazes nas portas das baladas. Sem dúvida, uma ordem de despejo por demolição é uma sentença difícil de recorrer. Mas a crise se alastra por toda a cidade, não apenas pela região afetada pela rodovia. É necessário investigar mais à fundo: Por que a nova geração não frequenta essas baladas? Por que os aluguéis estão subindo? Por que os novos vizinhos não gostam do barulho? Por que há interesse em expandir a Autobahn?
Todos esses fenômenos parecem ser metástases do mesmo câncer: o abraço gentrificador dos techies. Um abraço que esquentou uma Berlim assolada pela guerra fria, mas que agora sufoca sua identidade. Na sinfonia da cidade, os bondinhos amarelos disputam as ruas com Teslas brancos e patinetes elétricos, e as filas das baladas são lotadas de gente com MBA que tomou um banho de látex. Da cena subterrânea e revolucionária do passado restou apenas a estética: hoje, o techno é a música dos rooftops e dos coffee shops e dos jovens endinheirados de férias em Bali. Se antes os templos do techno eram porões e usinas abandonadas, hoje quem faz manchete são festivais ensolarados em locais exóticos. E dentre esses, nenhum é tão emblemático quanto o Burning Man.
Todo ano, multidões de jovens viajam ao deserto de Nevada para uma semana intensa de festa e networking. Tudo começa com a construção da infraestrutura: alojamentos, palcos, instalações sanitárias. Quem não quiser passar perrengue pode optar por uma acomodação no conceito glamping, isto é, uma barraca glamurosa que oferece os luxos de um quarto de hotel. É o ideal para poder descansar e comparecer revigorado aos shows de DJs famosos ou aos muitos eventos paralelos, como seminários de meditação e tantra. Ao final do evento, tudo o que se construiu é desmontado ou incinerado. O deserto volta a ser apenas deserto até a próxima edição.
O Burning Man foi sediado pela primeira vez ainda na década de 80. Entre as influências para o festival, seus criadores citam o filme Stalker, de Andrey Tarkovsky. O filme conta de uma zona pós-apocalíptica onde ninguém tem permissão de entrar; um descampado repleto de carcassas e ruínas, isolado do resto do mundo por arame farpado e bloqueios militares. Dentro dessa zona, diz-se haver uma sala que realiza o desejo mais profundo de quem a adentrar. A trama acompanha dois homens que contratam um guia especializado — profissão apelidada de stalker — para conduzi-los clandestinamente até a sala. É um filme lento e contemplativo, que discute temas como a nossa incapacidade de controlar o que realmente desejamos e o poder misterioso que a música tem sobre nós.
Stalker foi lançado apenas cinco anos depois de Autobahn, porém do outro lado da cortina de ferro, na União Soviética. Chega a ser cômico refletir sobre como as ideias dessas duas obras foram picadas e misturadas com avocado até chegar no resultado atual. Se houve um dia em que o Burning Man logrou unir os sons de Autobahn aos temas de Stalker, somente os arqueólogos saberão. Hoje, o festival reúne os sons de Ibiza com os temas das bravatas tecnolibertárias de Peter Thiel e Elon Musk.
O Burning Man é uma espécie de quaresma para a nata do capitalismo tecnológico: um momento de extravasar e viver a plenitude do privilégio. Veja: é necessário desembolsar uma pequena fortuna para comparecer ao festival, mas, uma vez lá, dinheiro é proibido. Os mandamentos que guiam o evento — coletivismo, generosidade, diversidade — são menos princípios de vida que regras de uma festa à fantasia: os participantes se divertem brincando de utopia para depois retornarem a seus calls e planilhas, onde o dinheiro volta a ser não apenas liberado, mas imperativo.
É em festivais como esse que fica evidente a apropriação do techno pelos techies: um fenômeno que vem substituindo não apenas o público, mas também os criadores. Da Europa à Ásia ao Vale do Silício, é comum encontrar gente que, de segunda à sexta, gerencia investimentos de venture capital, e aos finais de semana, comanda a vitrola. Diante desse tipo de artista, a IA chega a ser um livramento. Essa é, hoje, a realidade da noite de Berlim. É de se estranhar que os jovens não dão as caras? Aluguéis elevados, vizinhos chatos e rodovias inconvenientes são meros efeitos colaterais de um grande — e talvez inevitável — colapso cultural.
E assim, a ironiazinha concluiu seu relato e saiu voando pela janela. Mas, empirista convicto que sou, naturalmente eu não poderia simplesmente tomar a palavra dela como verdade. Decidi, então, fazer um estudo de campo.
Tendo me mudado para Berlim durante a pandemia, não tive logo de cara a oportunidade de vivenciar uma das famosas baladas techno da cidade. Enfim, era chegada a hora.
Acostumado à noite brasileira, senti o primeiro choque ainda na fila, quando fui instruído a evitar conversas e risadas, pois os guardas da entrada — que decidem quem pode entrar — não apreciam esse tipo de comportamento. Logo, minha madrugada de sábado começou com quase duas horas de silêncio, o que já fez borbulharem os bocejos. Quando, enfim, chegamos à porta, o guarda ignorou meu ingresso e, sem delongas, iniciou o interrogatório:
— Sabe me dizer quem vai tocar aqui hoje?
Respondi com o nome do DJ principal da noite, conforme instruído pelo meu amigo.
— Certo. E por que você está aqui hoje?
Respondi que gostava muito desse DJ e tinha vindo para dançar e ouvir música.
— Certo. E onde você estava antes?
Preocupado com o rumo da interrogação, meu amigo interveio. Estávamos em casa — ele disse —, apenas jantando.
— Certo. Usaram alguma coisa?
— Não, senhor.
Ainda bastante desconfiado, o homem me mediu dos pés à cabeça e enfim assentiu à nossa admissão.
Chegando à pista de dança, veio a segunda surpresa: não tinha ninguém dançando. Ao redor do DJ havia se formado um amplo semicírculo com pessoas chacoalhando desajeitadamente, paradas em seus postos, olhando para o palanque como se fosse um altar. Aquilo não era uma festa — era um culto. Observando os rostos, todo mundo parecia ou entediado, ou alucinado. Aguentei umas duas horas, mas a música, assim como o público, era repetitiva e desinteressante.
Saí então no pátio para tomar um ar, onde fui abordado por um rapaz pedindo fogo. Como eu não tinha, ele foi tentar a sorte com um grupo logo atrás. Como bom futriqueiro, fiquei quietinho prestando atenção na conversa.
O rapaz era desenvolvedor de software. Tinha saído recentemente de uma startup e agora buscava um novo emprego. Naquele grupo de cinco, havia dois fundadores, dois funcionários da mesma startup e um analista de venture capital. Rapidamente, um dos fundadores sacou o celular e adicionou o rapaz no LinkedIn. Trocadas as credenciais, o grupo expandido passou a discutir as notícias da semana: qual empresa levantou dinheiro, onde estavam previstas demissões, o futuro da IA.
Uns dez minutos depois, o investidor perguntou se não era uma boa hora para retornar à pista; seu colega estava prestes a assumir o palanque. Os dois trabalhavam juntos, ele explicou, e ambos eram DJs nas horas vagas.
O grupo então se foi. Satisfeito com o experimento empírico, peguei meu casaco na chapelaria, acenei para um táxi e fui embora.
O motorista me viu sorridente no banco de trás e comentou:
— Pelo visto, você teve uma bela noite na festa.
Concordei, enquanto observava as luzes se afastando e dando lugar a árvores sem folhas, que chacoalhavam à brisa da noite.