Arte requentada
Falando diante de alguns dos artistas mais influentes do planeta, Conan O’Brien arrancou aplausos quando anunciou que a cerimônia do Oscar havia sido produzida sem o auxílio de IA. No fim, era apenas o gancho para uma piada: em vez de IA — ele completou — teria sido usado trabalho infantil. No entanto, apesar do humor questionável, o apresentador acertou ao levantar essa bola: Hollywood é, hoje, um dos principais palcos da batalha travada entre profissionais criativos e empresas de tecnologia.
Desde o lançamento do ChatGPT, vem se espalhando o temor de que não apenas os trabalhos braçais e intelectuais, mas também os criativos possam, em breve, ser absorvidos pelas máquinas. Um temor que, na semana passada, levou músicos de renome — como Paul McCartney, Elton John, Dua Lipa e Ed Sheeran — a assinarem um apelo ao governo britânico para abortar um projeto que flexibilizaria direitos autorais para empresas que treinam modelos de IA no Reino Unido.
Se concretizada, essa mudança daria às empresas a liberdade de usar propriedade intelectual sem precisar de autorização e sem ter que compartilhar os lucros. Em outras palavras: aquilo que já acontece hoje de forma ilícita, em vez de penalizado pela Lei, receberia a sua chancela.
Um modelo de IA poderia ser treinado em cima das canções de Elton John, e, então, ser usado para gerar letras e melodias seguindo o estilo do músico sem oferecer nenhum compromisso moral ou financeiro em troca. As novas canções poderiam, por exemplo, dizer coisas com as quais Elton não concorda, e ser comercializadas para gente com quem ele disputa palco e público. Nesse cenário, o artista deixaria de ser um indivíduo em controle de sua obra e passaria a ser apenas um molde para qualquer um explorar, como um filtro do Instagram.
Fomentadores do projeto alegam que o Reino Unido — há séculos um estaleiro de grandes artistas — precisa dessa flexibilização para não ficar para trás na corrida da IA. Em outras palavras: os criadores estariam com os dias contados e deveriam ser sacrificados em nome do futuro.
Embora questionável dos pontos de vista técnico, econômico e social, essa perspectiva ecoa com as ambições de uma fatia cada vez mais poderosa e coesa do empresariado e da política. Assim como aplicativos de transporte vêm apostando em carros autônomos para se livrarem dos motoristas, plataformas de conteúdo sonham com um mundo em que filmes, músicas e memes são produzidos em data centers, sem os custos e as intempéries de criadores humanos. A industrialização do conteúdo também interessa à extrema direita, que encontra nos artistas alguns de seus rivais ideológicos mais espinhosos. Essa congruência forma uma fibra importante do poderoso músculo que une o Vale do Silício a Washington e é parte fundamental da agenda tecnolibertária.
Mas, muito aquém do fenômeno sociológico, o que emputece os artistas é que eles estão sendo roubados.
Os modelos de IA que temos hoje são construídos em cima do paradigma de que nada se cria, tudo se copia. Eles são treinados em cima de um sem-fim de dados — grande parte dos quais obtidos em violação a direitos autorais — e dependem de treinamento contínuo para se atualizar sobre o mundo: novos acontecimentos, ideias, palavras, obras de arte. Enquanto nós, seres vivos, temos acesso a vivências empíricas — sair na rua, se apaixonar, assistir ao Oscar — modelos de IA precisam recorrer a padrões entre palavras para computar respostas que pareçam adequadas. O ChatGPT não tem uma compreensão intrínseca do significado de amor, ódio, violência, justiça, nojo: ele sabe apenas quais palavras costumam aparecer juntas. A palavra “chocolate” aparece com frequência nas proximidades de "presente", "namorado" e “romântico”, mas também aparece ligada a “sobremesa”; nesses casos, ocasionalmente vem junto de “brigadeiro”, que, por sua vez, costuma vir próxima de “beijinho”; “beijinho doce” aparece numa canção famosa que contém outras tantas palavras associadas a "namorado" e “romântico”; e, assim, vai se formando uma nuvem, um vetor multidimensional de palavras e suas associações. É comparável a um psicopata que precisa aprender a reconhecer indicativos de sentimentos que ele não tem capacidade de sentir, de maneira que possa se comunicar com normalidade.
Assim como a obsessão anterior do Vale do Silício — o metaverso —, a IA nada mais é que um gerador de simulacros, uma tentativa de substituir a realidade por fragmentos que mantêm uma semelhança sinistra com ela, mas que podem ser controlados e monetizados de maneira mais eficiente.
Pois como seria, então, um futuro em que esses fragmentos têm papel central na nossa produção cultural? Em se tratando de Hollywood, talvez não tão diferente do presente. De épicos de guerra a comédias românticas, de sagas de super-heróis a dramas adolescentes, há décadas as grandes produções americanas vivem de requentar as mesmas histórias com novos temperos.
Se antes esse engessamento era imposto pelos mandachuvas — que não queriam arriscar os lucros fugindo de modelos comprovados de sucesso —, hoje ele é sustentado pela autoridade analítica dos dados. Cada vez mais, estúdios desenham seus próximos lançamentos a partir do processamento de grandes volumes de dados — como bilheteria, reproduções em plataformas de streaming, engajamento em redes sociais e venda de mercadorias licenciadas. A pergunta não é mais qual história queremos contar e sim qual história devemos contar. O que determina se o próximo James Bond enfrentará um vilão de sotaque russo, alemão ou chinês é menos a mente de um artista, e mais a resposta de uma equação.
Longe de retratar uma verdade objetiva sobre a cultura e as pessoas, os dados adicionam ainda mais espelhos à sala, reforçando aquilo que já foi testado e tem retorno garantido: o mesmo processo que torna os feeds das redes sociais um eco das nossas interações anteriores. A repetição é, sem dúvida, uma aposta mais segura que a autenticidade; ainda mais num mundo cada vez mais exausto, onde as pessoas parecem recorrer mais e mais ao conforto psicológico de reassistir às mesmas histórias.
Parametrizado dessa forma, o trabalho dos profissionais criativos vai perdendo seu componente empírico e subjetivo e tornando-se cada vez mais industrial. O exercício da arte se torna mais dedutivo que indutivo: é achar respostas claras para enunciados claros — uma tarefa talvez mais adequada às habilidades de uma máquina que de uma pessoa.
E é nesse contexto que a IA entra no enredo.
Cerceado pelo pragmatismo da indústria, o profissional criativo é tentado a recorrer à IA como ferramenta para gerar ideias, iterar sobre possibilidades, preencher lacunas; é fácil, é rápido, muitas vezes é suficiente. E assim, seduzido pela conveniência e empurrado pela demanda por produtividade, seu papel vai se reduzindo ao de um operador de máquina.
É preciso, portanto, olhar para a IA não como uma disrupção, mas uma mera continuidade da industrialização que Hollywood começou décadas atrás.
A IA não veio para tornar redundante a arte como expressão pessoal e subjetiva; ela jamais conseguiria sufocar essa pulsão. Ela vem simplesmente para tornar redundante o artista como funcionário, como engrenagem da indústria cultural.
A batalha não é filosófica; ela é financeira.
Na utopia tecnolibertária, um estúdio não precisaria contratar Elton John para compor uma trilha sonora: os produtores poderiam simplesmente pedir para uma IA gerar uma série de músicas seguindo seu estilo — e ainda poderiam customizá-las sem ter que fazer concessões. O valor artístico desse simulacro é nulo: não há autenticidade; ninguém está se expressando através dessa obra. Mas o público saberia a diferença? Considerando que este é um público exausto e condicionado a histórias requentadas, não se pode esperar muito discernimento e resistência.
Ao artista, restarão apenas duas opções: ceder sua propriedade intelectual à IA — se muito, por alguns trocados — ou recolher-se a espaços onde os robôs não chegam: saraus, bares, calçadas.
Enquanto em Los Angeles essa perspectiva é recebida com pânico e revolta, um pouco ao norte, em San Francisco, ela é digerida com um misto de fascínio e resignação: quem não a considera desejável, a considera inevitável. Por lá, muito se fala na ideia da Singularidade: o hipotético momento em que humanos e máquinas se tornariam uma e a mesma coisa. Mas, enquanto essa narrativa costuma focar no avanço tecnológico— as máquinas se tornando cada vez mais humanas — talvez seja mais adequado retratá-la pelo ângulo oposto: os humanos se tornando cada vez mais maquinais, parametrizados, previsíveis, substituíveis e deferentes aos donos da circuitaria.
Para um público de autômatos, talvez a IA arranque mais aplausos que qualquer artista.